PULSAR - Sônia Marini



PROSA


Muros baixos

Rua de terra, por onde corria em tardes imensas, de peito nu, sem saber que era menina. Rua das casas semi-vazias, muros baixos, portões convidativos, habitadas somente pelos fantasmas imaginários da infância.

O morro, que era montanha, para a menina arqueóloga e geóloga. Quantas preciosidades desenterrei...

O menino sardento, que descia a rua cantando "Hoje, hoje, hoje é meu dia. Eu vou ver, ver, o meu amor..." Naquela rua, meninas de peitos nus e meninos sardentos, amavam-se num mundo de sorrisos e rostos sujos de terra. Naquela rua, o amor não precisava de mais nada.

Rua, que tinha a casa mais importante do mundo. Uma casa com quintal de terra vermelha . Matéria prima de uma infinidade de cinzeiros, que nunca foram queimados. Esfarelados ao menor toque, ensinavam as primeiras lições do que era ir, do pó ao pó. E feitos pó, eternizaram-se.

Cachorros, gatos, passarinhos caídos do ninho, plantações de feijão no quintal. Meus, todos meus, aqueles seres verdes, que estendiam braços e dançavam com o vento.
O primeiro sutien, o primeiro absorvente, as primeiras lágrimas de amor. As primeiras muitas horas de portas fechadas, música romântica, diários, segredos, medos... O primeiro beijo. As primeiras cartas para ninguém ler.

Descobrir o prazer de ser mulher.

Casar, mudar e passar a ser visita. A primeira casa que meu filho conheceu, antes mesmo da própria.

Casa de mãe, tornando-se casa de avó. Bacia de plástico, fazendo papel de banheira de bebê, que virou banheira de menino, que virou lembrança de menino crescido, que virou saudade, para o menino que não cabe mais na bacia.

Foi vendida, a casa onde cresci.

Agora, será preciso pular os muros baixos da memória, para visitá-la.



Escrito por Sônia C. Marini às 16h02
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Mulheres e futebol.

 

 

Esse texto, eu fiquei devendo ao Marcos Pardim.

A idéia surgiu por um texto no blog dele, link ao lado, datado de 07/02. Fui fazer um comentário e vi que a coisa ia longe. Ia faltar espaço.

Depois, faltou foi pique. Tem épocas, em que as coisas caem na cabeça da gente às pencas. Resolvi aproveitar a trégua e , finalmente, falar de...futebol? Não. Mas de como o futebol e outras coisas que nossos homens gostam tanto e a gente não entende, podem ser interessantes, quando a gente olha com as lentes certas.

Muitas mulheres ficam se perguntando, qual a graça de ficar vendo 22 caras correndo atrás de uma bola? Ainda, se for final de campeonato, seu time favorito, copa do mundo ... a gente entende e até torce junto. Mas Xinxim do Norte contra CSFKCT de sei lá eu onde, é difícil! E eles ficam hipnotizados, xingam, resmungam, coçam o saco, balançam a cabeça e nem ouse passar na frente da TV ou fazer uma pergunta qualquer. Nua, lingerie nova? Bobagem, vai gastar cartucho à toa.

Já li explicações que dizem ter relação com a testosterona, com a necessidade de competir, de demonstrar força, bla, bla, bla. E isso muda o que? Nada.

Depois de muito bater cabeça eu aprendi uma coisa: Homens e mulheres são diferentes, sim. E muito! E é inútil e ridículo lutar contra isso, já que a graça é justamente a diferença.

Ninguém tenta entender, por que maçã é vermelha e banana é amarela e só um doido, bem doido mesmo, tentaria convencer uma maçã de que ela deve ser mais amarela, para ficar parecida com a companheira de fruteira.

Algum homem consegue, realmente, entender o porquê precisamos experimentar seis vestidos e acabar vestindo o primeiro? Acaso não ficamos nós, na frente do armário, hipnotizadas, exatamente como eles em frente da TV? Tem coisa pior do que ouvir um "tanto faz, vista qualquer um"?

Homem que é inteligente, não se incomoda com a nossa irritação diante do armário e de "não termos NADA para vestir!". Homem que é inteligente, observa do corredor nosso vestir e despir e torce, secretamente, para que a gente experimente mais um!

Mulher inteligente, não se irrita tentando entender qual a graça daquele jogo e nem invalida o prazer deles dizendo um: "não entendo como você consegue assistir ISSO" (equivalente feminino do "tanto faz, vista qualquer um" ). Mulher inteligente observa, do corredor ou do sofá mais próximo e torce, secretamente , para que o jogo seja emocionante e aquela testosterona toda ferva, enquanto simplesmente admira seu homem sendo.... homem. Afinal, não é justamente disso que a gente gosta?

Uma boa pedida, é fazer algo bem feminino enquanto nos deliciamos com a masculinidade deles. Vestir algo leve e curto (quanto mais curto melhor) e ir pintar as unhas dos pés onde possamos vê-los, e sermos vistas, quando a bola sai pela lateral e eles desviam os olhos da TV. Claro, corre-se o risco de, ao final do jogo, acabar borrando as unhas mas eu, particularmente, acho que a graça está justamente aí.

Viu Marcos? Não ia, mesmo, caber lá nos comentários.



Escrito por Sônia C. Marini às 10h20
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Coisas que um homem, provavelmente, nem sonha.

Enquanto pagava pelo combustível, sentia os olhares.
Voltou para o carro e estacionou num local apropriado . Quando abriu a porta e colocou a perna para fora, dois pares de olhos a aguardavam e seguiam.

Precisava daquele café. O vinho em excesso, ainda a fazia sentir-se tonta e alterada. Entrou na loja de conveniência e enquanto preparava o café, viu um deles entrando e se juntando ao caixa. Entreolhavam-se silenciosamente, sem risinhos maliciosos ou atitudes típicas de machos excitados . Mas comiam-na com os olhos e ela deixava-se comer, como quem não percebe.
Bebeu um gole do café e viu a mesa. Achou a banqueta um pouco alta, para o comprimento da sua saia e decidiu que estava perfeito. Sentou-se. Cruzou, discreta e lentamente, as pernas, enquanto se divertia com o dilema em que eles se encontravam. Olhavam e não olhavam, olhavam e não olhavam

Terminou rapidamente o café, pagou e saiu, arrastando os olhares que balançavam no ritmo do seu andar. Perguntava-se se eles saberiam.... Saberiam? Provavelmente não. Mas ela, sim, e isso bastava.

Podiam desejá-la o quanto quisessem. Cada olhar deles, avivava em seu corpo a memória dele, do seu homem. Nem ele sabia que a olhavam, nem eles sabiam de onde ela vinha. E ela, caminhava orgulhosa, como se o exibisse pelo braço e caminhassem nus, enrolados em lençóis, com uma taça de vinho nas mãos.

Enquanto olhavam para sua bunda, era a mão dele que estava lá. Que olhassem, então, mais e mais.

23/01/2006

Sônia C. Marini



Escrito por Sônia C. Marini às 10h12
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Amando e aprendendo. Ou não...

 

 

 

Quando o conheci, sabia que não seria bom ir para a cama com ele. Eu sabia, porque nunca tinha sido bom com alguém que não me despertasse desejo, logo de início.

Um dia estava carente, sozinha e ele sempre ali, sempre amigo, sempre interessante, sempre provocando. Fui, mesmo sabendo que não seria bom. Foi.

Voltei e tornei a voltar outras vezes, mas tinha certeza de que minhas visitas acabariam, quando acabasse a novidade. Conheço do que se alimenta o meu desejo e, na ocasião, não havia muito mais alimentando-o.

Talvez ele tivesse mais mistérios que os outros. Talvez eu apenas estivesse gostando de estar no comando, ou de pensar que estava. Continuei voltando, mas sempre tive certeza de que jamais me apaixonaria por ele. De paixão eu entendo!

Ainda não sei bem como aconteceu mas, de repente, dei-me conta de que pensava nele todos os dias, quase o dia todo. Era o retrato da alegria quando ele ligava e enlouquecia quando não.

Achei que fosse morrer de dor quando o perdi. Não morri. Então, soube que era capaz de esquecê-lo. Mas não esqueci.

Jurei jamais aceitá-lo de volta e quando ele reapareceu, disse-lhe tudo o que havia ficado engasgado! Fui fria e dura! Depois, atirei-me em seus braços, em prantos. Mas eu sabia, que era apenas a despedida que não pude ter.

Continuamos nos despedindo até hoje mas, eu sei que não dura muito!

Sônia C. Marini



Escrito por Sônia C. Marini às 15h19
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Só um aperitivo. O conto inteiro, só no dia em que sair o livro.
Gostou? Reze pra sair logo. Estou precisando de torcida.

 

A OUTRA

...Era impossível olhar aquela mulher, aquelas coxas volumosas escapando do vestido, os seios fartos, as curvas, e não imaginá-lo olhando-a, tocando-a, fazendo amor com ela. Sentia uma quase irresistível vontade de tocá-la, e isso a perturbava. Nunca sentira atração por mulheres. Demorou a entender, que não era a ela que desejava. Desejava sim, o que havia dele, nela. Certamente havia naquele corpo, impregnado, aderido à pele, o odor do suor, da saliva, do sêmem dele. O mesmo odor que ele deixava em seu corpo, como um rastro ,uma marca invisível e indelével.

Tinha vontade de tocar aquela carne e sentir o que ele sentia ao fazê-lo.

Era mais do que o desejo de comparar-se a outra, de saber quem era mais isso ou menos aquilo. Era o desejo senti-lo um pouco mais, só mais uma vez. Uma última vez.

Era também, o desejo de tirá-lo dela. Era tudo muito confuso e ambíguo, já que estava deixando-o todo para ela, sem oferecer resistência. Mas isso, era o que sua dignidade queria. Seu desejo só queria a ele, ainda que ele viesse do corpo da outra.

Achou que estava enlouquecendo...



Escrito por Sônia C. Marini às 14h16
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Um copo de leite.

 

Um copo de leite talvez resolva. Não quero ir, está frio.
O estômago arde pelos cigarros. Foram tantos desde ...nem sei mais quando. Um copo de leite, talvez resolva...
Arrasto-me até a cozinha, lenta, narcótica. Passo antes, sem precisar, pelo espelho do banheiro, para ver quem sou. Um copo de leite, talvez resolva...
Seria melhor morno. Aciono, mecanicamente, o microondas.

Cinco e trinta. Um cobertor a mais. Os olhos ardem. O estômago está melhor.
Cinco e trinta e cinco. Assim não é possível! Por que diabos acordei? Terá ela me chamado novamente?

A TV talvez resolva. Não. O computador, talvez. Não.

Repasso as cenas, palavras perdidas, chegada, saída, peças soltas, recolho, encaixo, embaralho, reencaixo. Nada parece ter lugar...

Sete minutos, vermelhos e lentos...

Não consigo me mexer. Talvez conseguisse, mas não quero. Talvez queira, mas me falte um motivo...
Oito...

Não há nada, absolutamente nada, que eu possa fazer. Não conseguiria ler se quisesse e não quero.
Os olhos ardem. O estômago está melhor. Acendo mais um cigarro.

Tento lembrar o rosto dele. Vejo, apenas, pernas e seios. Palavras desordenadas em frases desconexas.

Quarenta e um....O que estarão fazendo? Suicídio, incêndio, CDs pelo chão, outro assassinato do sofá? Reinará, neste momento, o ressonar sereno dos que há muito aprenderam a dividir a mesma cama depois do sexo, das brigas, dos gritos e das lágrimas? Desculpas e culpas, num gemido de gozo cúmplice e resignado? Emaranhado de pernas e mágoas? Quase posso vê-los na noite em claro, na sala destruída, amando como bichos sobre os CDs espalhados.

E ele dizia meu nome... Era o meu nome!

Zero, zero. Seis, zero, zero, e a certeza de que estão dormindo na cama onde ouvi meu nome, tantas vezes...tantas vezes...

Meus olhos ardem, mas não posso dormir. Espero quieta, imóvel, o tempo passar.

Seis e vinte e cinco.

Calculo o horário. Tento adivinhar a escala do trabalho. E rezo ao diabo para ele ter que levantar, enquanto eu não consigo dormir!

Está indo mais rápido, agora. Já faz uma hora. Outro copo de leite, para ver se melhora...

 

08/02/2005

Sônia C. Marini



Escrito por Sônia C. Marini às 11h09
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O som do vinho deixando o gargalo. Uma, duas vezes. Duas taças.

O som do fundo da garrafa tocando o vidro da mesa.

E o  silêncio constrangedor, dos que já não têm mais nada a brindar.

 

Sonia C. Marini
23/10/2005

 



Escrito por Sônia C. Marini às 23h09
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O vegetal

 

 

Era de se esperar, que a dor se parecesse com uma bomba, no exato instante da explosão. Seria lógica qualquer reação descontrolada e desmedida. Quem ousaria apontar ou censurar? Quem, mesmo tendo vivido realidade oposta, mesmo de outro sexo, jovem demais, insensível demais, ousaria reprovar um gesto mais desesperado?

Todas as lágrimas lhe seriam lícitas.

Todos os impropérios lhe seriam perdoados.

Era óbvia a seqüência de reações. Estavam todos confortavelmente postados, usando suas apropriadas expressões faciais de piedade e indignação solidária. Todos prontos para representar o papel que lhes cabia.

Não haveria de prolongar-se muito, afinal. Em pouco mais de alguns segundos, tudo estaria terminado e todos poderiam retomar seus afazeres. Sairiam meneando tristemente a cabeça. Um suspiro aqui, uma lágrima de compaixão ali, uma frase de efeito melancólica ou indignada e, fim.

Mas o que se seguiu foi um tiro sem estampido!

Três ou quatro frases curtas, corretamente informativas, e só.

Nem uma única lágrima se viu rolar, no rosto daquela mulher. Não havia um traço sequer de embargo na sua voz. Não se ouviu, daquela boca, uma única palavra áspera.

Ela era toda um rosto árido e olhos vazios.

Um cacto solitário e seco, no meio de um deserto sem sons. O nada em meio ao nada.

Não havia mais filho. Não havia mais mãe.

Não havia sinal gráfico que pudesse encerrar a última frase daquele breve relato.

Ninguém pôde desligar a televisão e virar as costas para mais uma mãe da periferia: parda, desdentada, feia e justificadamente histérica, que perdera o filho assassinado não se sabe como, não se sabe por quem.

A feia e pobre criatura pobre transformara-se, para espanto de todos, em um vegetal.

Por mais de duas longas horas, todos permaneceram imóveis frente às tevês ligadas e mudas, que ainda mostravam a imagem do vegetal congelada no exato instante da sua última frase.

Foi então que alguém disse: - Eu sei. Vi na tevê, não me lembro quando... São os tais transgênicos. Esses cientistas... inventam cada uma... Agora eles também falam!

Levantou-se e saiu, suspirando, meio aborrecido, meio indignado, cabeça baixa, balançando de um lado para o outro.

Dois minutos depois ouviu-se um "Puta que o pariu! Não falta inventarem mais nada!" E o dono do palavrão saiu também para ir trabalhar.

Uma dona de casa levantou-se, em seguida, para ir à feira. Colocou na carteira um pouco de dinheiro a mais do que levava habitualmente, na certeza de que depois dessa notícia, as verduras estariam pela hora da morte. Saiu apressada, resmungando algo incompreensível.

Foram levantando-se, um a um a princípio, depois aos pares e em seguida em grupos pequenos, até que a cidade toda tivesse voltado ao seu ritmo normal. Do jeito que era para ser, do jeito que todos queriam que fosse.

E o prefeito, olhando da varanda de seu apartamento, disse aliviado: - Graças a Deus!

 

 

Sônia C. Marini

Num dia qualquer, entre 2004 e 2005.



Escrito por Sônia C. Marini às 00h45
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Íntimo estranho

Parte I

 

Olhou-o, deitado ali, somente de cuecas, estendido sobre a sua cama.

Sem pensar em nada e contrariando tudo o que já fizera antes, talvez para medir seu poder sobre ele, ou talvez, porque não fosse capaz de repetir, o antes tão natural ato de despi-lo, ordenou:

- Tire.

Quase não acreditou no que tinha ouvido sair de sua boca, mas ele tirou. Desvencilhou-se daquela peça de roupa, mais rapidamente do que ela jamais fora capaz de fazer, ou imaginar. E ele estava, então, inteiramente nu sobre a sua cama. Entregue, pronto, esperando.

Quantos meses se passaram desde a última vez? Que importava quantos? Eram tantos...Bastantes para supor que aquela cena jamais aconteceria.

Mas estava acontecendo. Seu membro ereto, por noites e noites desejado, estava ali. Sua mão aproximou-se dele quase sozinha, quase por instinto. Tocou-o levemente, não para lhe dar prazer. Tocou-o, para se certificar de que era real, da mesma forma que , minutos antes, abrira os botões de sua camisa e tocara seu peito.

Não...não foi da mesma forma.

Tocar seu peito era, simbolicamente, certificar-se de seu retorno, tentar alcançar seu coração.

Escorregou suas mãos sobre seu peito, indo e vindo, crispando os dedos em seus pêlos. Pêlos que ela nunca admirou em outros homens. Mas isso foi antes de conhecê-lo. Como aprendera a amar aqueles pelos! Aquele peito e seus pelos eram o símbolo de tudo o que ela aprendera a amar naquele homem. Um símbolo vivo e palpitante, de todas as certezas e teorias que ela atirou no lixo. De todos os enganos que cometera. Recostou a cabeça sobre seu ombro e chorou toda a distância que sentia daquele coração. Chorou de saudade e de raiva de si mesma, por não resistir. Teve vontade de esmurrar aquele peito, que traiu seu amor, e vontade de beijar aquela boca que tantas vezes beijou. Nada fez. Chorou, apenas, sua fraqueza.

Olhar seu sexo era diferente. Simbolizava o desejo, a intimidade. Tocava-o, procurando a intimidade perdida. Olhava-o como quem, perdido, olha um mapa e se pergunta: Onde? Como voltar para casa?

Esperava que, tocando-o, ressurgisse o desejo que ele antes lhe despertava mas, onde? Em que lugar, debaixo da pilha de mágoas, ele estaria? Desejou-o silenciosamente por tantas noites... Odiou-se por isso, chorou e amaldiçoou aquele símbolo de desejo, prazer e intimidade. E continuou desejando-o, noite após noite. Odiando-se e odiando-o.

Agora ele estava ali, diante de seus olhos, e ela não sabia o que fazer.

Era o mesmo e era outro.

Conhecia cada centímetro daquele corpo. Sabia exatamente onde e como devia tocá-lo mas, não era capaz de fazê-lo. Estava ali, mas não lhe pertencia mais. Nunca lhe pertencera.
Pertencer... Ele teria feito um irritante discurso, por esta única palavra, se tivesse podido ler seus pensamentos.

...Continua. Ver parte II



Escrito por Sônia C. Marini às 14h56
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Íntimo estranho (parte II)

Parte II

(Ver parte I)

 

Quase aproximou sua boca dele, num movimento instintivo. Ele queria e esperava por isso, ela sabia. Durante muito tempo, pensou que fosse algo especial entre eles. Durante tanto tempo, esteve tão completamente enganada sobre tantas coisas...

Imaginou e desejou fazê-lo, tantas, tantas vezes... E agora que ele estava exatamente onde ela tanto sonhou, não pôde, não quis, estava paralisada .

Quando se faz sexo com alguém, pela primeira vez, há uma surpresa por detrás de cada toque. Um gemido? Um sorriso? Indiferença? Desaprovação? Um contorcer? Um "ah" aspirado e profundo? Um apertar de mãos que indica - sim! - ?

Amar repetidamente a mesma pessoa, é trocar algumas surpresas por reconfortantes certezas. É como caminhar no escuro, pela própria casa. Com o tempo e a intimidade, as mãos, a boca e o corpo sabem por onde ir, como ir, quanto...E ela sabia. Seu corpo ainda sabia. Mas não pôde.

E se tivesse vontade de feri-lo, mordendo-o como quem esmurra um peito? E se não resistisse à tentação, de causar-lhe a dor que sentia? Poderia suportar causar-lhe dor? Acaso não doeria mais em si mesma a dor que pudesse causar-lhe? E se resistisse e ele gemesse, como sempre, como antes? Suportaria dar-lhe prazer, em troca da dor que ele lhe dera?

Não pôde. Não havia a excitação do desconhecido com um estranho, nem a reconfortante intimidade do conhecido. O sexo que ela tanto desejara, ficou perdido em algum lugar entre a intimidade que tiveram um dia e a ilusão que desmoronou. Aquele , que ela demoradamente observava, era estranho mas não lhe surpreenderia. Era conhecido, mas não lhe confortava.

Aquele emaranhado de veias, não lhe indicava o caminho de volta. Não se pode voltar para um lugar que não existiu. Isso era tão triste...

Por um instante, quase pôde ver a outra sobre ele, cavalgando-o. Mas não quis. Não queria pensar em mais nada. Teve medo de recomeçar a chorar e estragar tudo. Tudo? O que mais poderia ser estragado? Não teve coragem para esperar pela resposta.

Abriu a gaveta do criado-mudo, ofereceu-lhe um preservativo e disse:

- Ponha.

E ele pôs.

Deitou-se e disse:

- Venha.

E ele foi.

 

Sônia C. Marini



Escrito por Sônia C. Marini às 14h52
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