O som do vinho deixando o gargalo. Uma, duas vezes. Duas taças.
O som do fundo da garrafa tocando o vidro da mesa.
E o silêncio constrangedor, dos que já não têm mais nada a brindar.
Sonia C. Marini 23/10/2005
Categoria:
PROSA
Escrito por Sônia C. Marini às 23h09
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PROVOCAÇÃO
Exibiu-se nua
Num meio sorriso
Falsamente distraído
Como se apanhada
Em delito flagrante
Luminosa e completa
Mais bela que antes
Denunciando a passagem
Das noites perdidas
De dois não-amantes
Súbita
Cobriu de negros véus
A impudícia da provocação
E partiu
Só e vazia
Sorri da ironia
Cheia de lua
Saudades de ti.
Sonia C. Marini
21/04/2005
Categoria: POESIA
Escrito por Sônia C. Marini às 11h27
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O vegetal
Era de se esperar, que a dor se parecesse com uma bomba, no exato instante da explosão. Seria lógica qualquer reação descontrolada e desmedida. Quem ousaria apontar ou censurar? Quem, mesmo tendo vivido realidade oposta, mesmo de outro sexo, jovem demais, insensível demais, ousaria reprovar um gesto mais desesperado?
Todas as lágrimas lhe seriam lícitas.
Todos os impropérios lhe seriam perdoados.
Era óbvia a seqüência de reações. Estavam todos confortavelmente postados, usando suas apropriadas expressões faciais de piedade e indignação solidária. Todos prontos para representar o papel que lhes cabia.
Não haveria de prolongar-se muito, afinal. Em pouco mais de alguns segundos, tudo estaria terminado e todos poderiam retomar seus afazeres. Sairiam meneando tristemente a cabeça. Um suspiro aqui, uma lágrima de compaixão ali, uma frase de efeito melancólica ou indignada e, fim.
Mas o que se seguiu foi um tiro sem estampido!
Três ou quatro frases curtas, corretamente informativas, e só.
Nem uma única lágrima se viu rolar, no rosto daquela mulher. Não havia um traço sequer de embargo na sua voz. Não se ouviu, daquela boca, uma única palavra áspera.
Ela era toda um rosto árido e olhos vazios.
Um cacto solitário e seco, no meio de um deserto sem sons. O nada em meio ao nada.
Não havia mais filho. Não havia mais mãe.
Não havia sinal gráfico que pudesse encerrar a última frase daquele breve relato.
Ninguém pôde desligar a televisão e virar as costas para mais uma mãe da periferia: parda, desdentada, feia e justificadamente histérica, que perdera o filho assassinado não se sabe como, não se sabe por quem.
A feia e pobre criatura pobre transformara-se, para espanto de todos, em um vegetal.
Por mais de duas longas horas, todos permaneceram imóveis frente às tevês ligadas e mudas, que ainda mostravam a imagem do vegetal congelada no exato instante da sua última frase.
Foi então que alguém disse: - Eu sei. Vi na tevê, não me lembro quando... São os tais transgênicos. Esses cientistas... inventam cada uma... Agora eles também falam!
Levantou-se e saiu, suspirando, meio aborrecido, meio indignado, cabeça baixa, balançando de um lado para o outro.
Dois minutos depois ouviu-se um "Puta que o pariu! Não falta inventarem mais nada!" E o dono do palavrão saiu também para ir trabalhar.
Uma dona de casa levantou-se, em seguida, para ir à feira. Colocou na carteira um pouco de dinheiro a mais do que levava habitualmente, na certeza de que depois dessa notícia, as verduras estariam pela hora da morte. Saiu apressada, resmungando algo incompreensível.
Foram levantando-se, um a um a princípio, depois aos pares e em seguida em grupos pequenos, até que a cidade toda tivesse voltado ao seu ritmo normal. Do jeito que era para ser, do jeito que todos queriam que fosse.
E o prefeito, olhando da varanda de seu apartamento, disse aliviado: - Graças a Deus!
Sônia C. Marini
Num dia qualquer, entre 2004 e 2005.
Categoria:
PROSA
Escrito por Sônia C. Marini às 00h45
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Íntimo estranho
Parte I
Olhou-o, deitado ali, somente de cuecas, estendido sobre a sua cama.
Sem pensar em nada e contrariando tudo o que já fizera antes, talvez para medir seu poder sobre ele, ou talvez, porque não fosse capaz de repetir, o antes tão natural ato de despi-lo, ordenou:
- Tire.
Quase não acreditou no que tinha ouvido sair de sua boca, mas ele tirou. Desvencilhou-se daquela peça de roupa, mais rapidamente do que ela jamais fora capaz de fazer, ou imaginar. E ele estava, então, inteiramente nu sobre a sua cama. Entregue, pronto, esperando.
Quantos meses se passaram desde a última vez? Que importava quantos? Eram tantos...Bastantes para supor que aquela cena jamais aconteceria.
Mas estava acontecendo. Seu membro ereto, por noites e noites desejado, estava ali. Sua mão aproximou-se dele quase sozinha, quase por instinto. Tocou-o levemente, não para lhe dar prazer. Tocou-o, para se certificar de que era real, da mesma forma que , minutos antes, abrira os botões de sua camisa e tocara seu peito.
Não...não foi da mesma forma.
Tocar seu peito era, simbolicamente, certificar-se de seu retorno, tentar alcançar seu coração.
Escorregou suas mãos sobre seu peito, indo e vindo, crispando os dedos em seus pêlos. Pêlos que ela nunca admirou em outros homens. Mas isso foi antes de conhecê-lo. Como aprendera a amar aqueles pelos! Aquele peito e seus pelos eram o símbolo de tudo o que ela aprendera a amar naquele homem. Um símbolo vivo e palpitante, de todas as certezas e teorias que ela atirou no lixo. De todos os enganos que cometera. Recostou a cabeça sobre seu ombro e chorou toda a distância que sentia daquele coração. Chorou de saudade e de raiva de si mesma, por não resistir. Teve vontade de esmurrar aquele peito, que traiu seu amor, e vontade de beijar aquela boca que tantas vezes beijou. Nada fez. Chorou, apenas, sua fraqueza.
Olhar seu sexo era diferente. Simbolizava o desejo, a intimidade. Tocava-o, procurando a intimidade perdida. Olhava-o como quem, perdido, olha um mapa e se pergunta: Onde? Como voltar para casa?
Esperava que, tocando-o, ressurgisse o desejo que ele antes lhe despertava mas, onde? Em que lugar, debaixo da pilha de mágoas, ele estaria? Desejou-o silenciosamente por tantas noites... Odiou-se por isso, chorou e amaldiçoou aquele símbolo de desejo, prazer e intimidade. E continuou desejando-o, noite após noite. Odiando-se e odiando-o.
Agora ele estava ali, diante de seus olhos, e ela não sabia o que fazer.
Era o mesmo e era outro.
Conhecia cada centímetro daquele corpo. Sabia exatamente onde e como devia tocá-lo mas, não era capaz de fazê-lo. Estava ali, mas não lhe pertencia mais. Nunca lhe pertencera. Pertencer... Ele teria feito um irritante discurso, por esta única palavra, se tivesse podido ler seus pensamentos.
...Continua. Ver parte II
Categoria:
PROSA
Escrito por Sônia C. Marini às 14h56
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Íntimo estranho (parte II)
Parte II
(Ver parte I)
Quase aproximou sua boca dele, num movimento instintivo. Ele queria e esperava por isso, ela sabia. Durante muito tempo, pensou que fosse algo especial entre eles. Durante tanto tempo, esteve tão completamente enganada sobre tantas coisas...
Imaginou e desejou fazê-lo, tantas, tantas vezes... E agora que ele estava exatamente onde ela tanto sonhou, não pôde, não quis, estava paralisada .
Quando se faz sexo com alguém, pela primeira vez, há uma surpresa por detrás de cada toque. Um gemido? Um sorriso? Indiferença? Desaprovação? Um contorcer? Um "ah" aspirado e profundo? Um apertar de mãos que indica - sim! - ?
Amar repetidamente a mesma pessoa, é trocar algumas surpresas por reconfortantes certezas. É como caminhar no escuro, pela própria casa. Com o tempo e a intimidade, as mãos, a boca e o corpo sabem por onde ir, como ir, quanto...E ela sabia. Seu corpo ainda sabia. Mas não pôde.
E se tivesse vontade de feri-lo, mordendo-o como quem esmurra um peito? E se não resistisse à tentação, de causar-lhe a dor que sentia? Poderia suportar causar-lhe dor? Acaso não doeria mais em si mesma a dor que pudesse causar-lhe? E se resistisse e ele gemesse, como sempre, como antes? Suportaria dar-lhe prazer, em troca da dor que ele lhe dera?
Não pôde. Não havia a excitação do desconhecido com um estranho, nem a reconfortante intimidade do conhecido. O sexo que ela tanto desejara, ficou perdido em algum lugar entre a intimidade que tiveram um dia e a ilusão que desmoronou. Aquele , que ela demoradamente observava, era estranho mas não lhe surpreenderia. Era conhecido, mas não lhe confortava.
Aquele emaranhado de veias, não lhe indicava o caminho de volta. Não se pode voltar para um lugar que não existiu. Isso era tão triste...
Por um instante, quase pôde ver a outra sobre ele, cavalgando-o. Mas não quis. Não queria pensar em mais nada. Teve medo de recomeçar a chorar e estragar tudo. Tudo? O que mais poderia ser estragado? Não teve coragem para esperar pela resposta.
Abriu a gaveta do criado-mudo, ofereceu-lhe um preservativo e disse:
- Ponha.
E ele pôs.
Deitou-se e disse:
- Venha.
E ele foi.
Sônia C. Marini
Categoria:
PROSA
Escrito por Sônia C. Marini às 14h52
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É preciso?
Entregar a adaga
Descerrar a blusa
Ofertar o peito
Aguardar o golpe
Não calar o grito
Submeter o sangue
Para crer na morte
E chorar a sorte?
Sônia C. Marini
26/02/2004
Categoria: POESIA
Escrito por Sônia C. Marini às 14h32
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São tão raras as flores...
Não digas nada
Deixa-me apenas
sentir esse perfume
um pouco mais...
Deixa que o único ruído
seja o do vento a roçar
nas pétalas que exalam
doçura e sonho.
Sônia C. Marini
Março/2004
Categoria: POESIA
Escrito por Sônia C. Marini às 14h29
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Escrever, para mim, é algo como respirar. Escrevo porque estou viva e estou viva porque escrevo.
Houve um longo tempo, em que não escrevi uma única linha. Quando ressuscitei, descobri o motivo. Mas isso é passado...
Inevitável lembrar, neste momento, da primeira vez que li "Cartas a um jovem poeta (Primeira carta) – Rainer Maria Rilke".
..." Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?"...
http://www.releituras.com/rilke_cartpoeta.asp
Escreveria, ainda que não houvesse um leitor. Mas se os há, se posso tocar suas almas, fazê-los pensar, sorrir, se emocionar, recordar, sonhar... Um único que seja, por quê não? Essa é a razão deste blog. Por isso, seja bem vindo(a)!
Escrito por Sônia C. Marini às 12h46
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